quarta-feira, 12 de julho de 2017

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Diárias

Link de onde a foto está sendo reproduzida/ knnth andrade
A moça encosta a vassoura na parede e começa: afasta a mesa de vidro, arrasta a cristaleira, coloca o sofá de ponta a cabeça. Tem a respiração acelerada e os olhos contornados por fortes olheiras. Às vezes encara a almofada por longos minutos, mas logo deposita sua atenção em outro lugar.

Quando tudo está devidamente posicionado, as mãos se estendem até a vassoura e sustentam o cabo de madeira, o balançando de um lado para o outro, enquanto o objeto cumpre o único propósito pelo qual existe. Ela tira a sujeira acumulada no chão e, vez ou outra, se presenteia com algumas pausas para respirar.

Entre bocejos, liga o rádio.  O chiado ecoa no ambiente por alguns segundos, até que finalmente consegue encontrar a música que está tocando a cada cinco minutos em todas as estações. Retoma a vassoura, cantarola. O suor escorre pela testa. Para, pega um pano, seca as bochechas, o pescoço, e coloca-o de volta . Olha a sala. Varre mais um pouco.

O pequeno ponteiro do relógio preso à parede caminha do sete para o oito, ainda é manhã. Ela estanca, os dedos tamborilam no cabo enquanto observa o aparelho eletrônico. Pega a vassoura e a encosta na mesa, segue para a lavanderia e escolhe um balde, o enche com água e detergente, daqueles que o cheiro é sentido a quilômetros de distância. Volta para a sala.  Coça o nariz. Enxágua o pano no balde e esfrega no chão. Cantarola.

Para e olha o relógio. O ponteiro desceu mais dois números. Ela respira fundo, antes de começar a esfregar mais rápido. Se levanta, coloca seus pés no pano e passeia assim pela sala. Ao final da tarefa, o ponteiro já desceu outro número. A moça o encara, seus lábios se retorcem, coça o nariz de novo. As mãos estão avermelhadas, como a ponta do nariz.

Parece se apressar, recolhe as coisas, desliga o rádio, devolve os móveis para o lugar e vai direto ao banheiro. Joga as roupas e panos no chão. Entra no chuveiro. A água escorre pelo corpo. As mãos já não estão tão irritadas e ela coça menos o nariz. Saí do banho, se veste com outras roupas e guarda as usadas na bolsa, escova os cabelos, pega o relógio de pulso.

Volta para a sala. Outra mulher entra no cômodo, a cumprimenta, abre a carteira e dá um sorriso fraco. A moça encara a nota oferecida e retorce os lábios. O cinza ao redor dos olhos está mais intenso. Pega o dinheiro, agradece, e vai embora.

Corre para a parada de ônibus. Senta no banco e espera. Quando o veículo vermelhinho vai passar, ela estende o braço, mas ele queima a parada. Encara o relógio. O ponteiro está marcando uma da tarde. Espera. Outro vermelhinho surge. Sobe, percebe uma cadeira vazia e senta. Os olhos se fecham por um tempo, mas ela os abre em 10 minutos e pede parada. 

Desce, caminha por algumas esquinas. Por fim chega em uma casinha branca, que parece precisar de algumas mãos de tinta. Toca a campainha, pouco tempo passa até um senhor, com cabelos tão brancos quanto a casa, atender. Ela entra sorrindo, ele mostra os cômodos, e depois se despede para seguir ao próprio quarto.

A moça da um logo suspiro e vai até o banheiro que fica na lavanderia. Pega as roupas usadas, troca-se, prende o cabelo, volta para a sala e começa: afasta o centro, levanta o sofá, arrasta o suporte da televisão, encosta a vassoura na parede, liga o rádio. Cantarola. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Antes do meio dia

Reprodução Google

-Alô?
-Hum, quem é?
 -Sou eu, amor.
-Ah, oi.
-O que foi? Por que tão seca? - Ele escuta um suspiro no outro lado da linha.
 -Mô, dez horas ... é melhore você ter uma boa razão para me ligar.
-Claro que tenho uma boa razão.
Ela boceja antes de falar novamente:
 -Então desembuche.
-Eu amo você.
-...
-Amor?
 - Você me ligou de madrugada para falar isso?
- Já é de manhã.
- Manhã, em um domingo, só depois do meio dia.
-Ora, que besteira. Eu só queria dizer que estou com saudades da mulher que amo!
 Outro bocejo por parte da namorada.
 -E não poderia dizer isso em horário comercial?
 -Mas estamos em horário comercial!
 -Não, amor, é domingo.
-Já entendi, você não me ama mais! - Ele dá o seu melhor suspiro exagerado. -Lembro da época em que estava sempre querendo declarações de amor. Agora, mal tem tempo de ler minhas mensagens. Ela revira os olhos, sabendo que o namorado não vai ver.
 -Que história! Olha o drama...
-É sim, você não me ama mais.
 -Amor... é domingo.
 -...
 - Drama no domingo de madrugada...
-Manhã- ele a corrige.
 -Que seja, não dá, né? Por favor me poupe, nos poupe.
-Tá, tá bom... vou desligar então.
 Mas antes de tirar o telefone do ouvido, ele escuta:
-Ei.
 -Oi?
-Eu te amo, tá? - O rapaz sorri e os dois desligam.
Dois anos depois: domingo, 11h, o casal está na cama.
-Amor, amor?
- Hum, oi?- Ele mostra a caixinha cinza que escondera no travesseiro durante a noite.
-Quer casar comigo? Ela vê o lindo anel de diamantes, sorri. Porém, em seguida olha o relógio na cabeceira da cama. Respira fundo.
-Ah, não.
-O que foi?
 -Onze horas em um domingo... você não aprende nunca?
-Mas...
- Me faça essa pergunta depois de meio dia, tá?
Vira e volta a dormir.


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Entre amigos

Do google

Campainha.
Abro a porta.
Ele entra em minha casa e, sem nenhum cumprimento, já vai abrindo a geladeira.
-Ei, não vai nem dizer "oi"?
Me olha.
-Oi.
Sorrimos.
Coloca sorvete para os dois e se joga no sofá.
- O que houve?- Pergunto.
-Só queria companhia.
Assistimos um filme, falamos besteira, rimos um da cara do outro e no final da tarde ele foi embora.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Sobre The Kiss of deception

The Kiss of Deception,  da autora Mary. E. Pearson, publicado pela editora Darksidebooks é um romance que honra o subtítulo de “crônicas de amor e ódio”. O livro começa como uma história aparentemente clichê: princesa prometida em casamento a um príncipe que não conhece para unificar reinos e ganhar a guerra. Obviamente ela não quer. Obviamente ela foge.

Até aí o leitor está agoniado querendo saber se de fato começou a ler só mais um desses livros de domingo, que vai divertir, mas sem trazer algo novo ou se alguma coisa surpreendente vai acontecer. A resposta chega à medida que os capítulos passam e o enredo apresenta-nos uma dinâmica diferente da usual. 

O príncipe se revolta e vai atrás da princesa porque quer conhecer a mulher que teve coragem de desafiar os próprios pais, coisa que ele mesmo não teve. Porém, o noivo não é o único que está em seu encalço: o povo com quem eles estão em guerra enviam um assassino para encontrar a princesa Lia e terminar com qualquer chance que ela tenha de voltar e cumprir seu compromisso.

“Sim e o que é que tem de diferente nisso tudo?”

É que, no momento em que os dois a encontram, nós os conhecemos pelo olhar de Lia que não sabe quem são, e ambos assumem identidades falsas para tentarem se aproximar da garota. Então, o leitor possui uma vantagem sobre a personagem: tem conhecimento de que um deles é um príncipe e o outro um assassino, mas, como Lia, não fazem ideia de quem é quem! Para deixar ainda mais interessante, os dois personagens se apaixonam pela princesa e ela também, por um deles.

O que nos faz ficar malucos durante a leitura é não saber por quem ela se apaixonou! A narrativa começa um jogo divertido e cativante com o leitor.

O livro tem 409 páginas, os capítulos possuem de 2 até 13 páginas e são separados por quem está narrando a história; a maioria das vezes é a própria Lia, mas vez ou outra temos os outros personagens identificados pelos seus títulos (assassino/príncipe) ou pelos nomes falsos que deram a princesa.

A partir do meio, o livro que ainda tinha certa inocência (talvez pela própria Lia ainda estar muito “verde”), começa a ficar mais pesado, de fato demonstrando o quanto a guerra é cruel. A personagem vai sofrer decepções, se apaixonar, ser iludida, se iludi, vivenciar cenas horríveis e maravilhosas e isso vai levá-la ao amadurecimento.

Contudo, quando passamos um pouco da metade do livro, a história fica mais lenta e também enfadonha. Apesar de entender a necessidade de mostrar que a jornada da personagem é demorada e cheia de sofrimento e aprendizado, a narrativa termina fazendo com que, por bem 60 páginas, à vontade predominante do leitor seja de dar um tempo na leitura. Mas, após essa fase,  o romance traz novos acontecimentos que começam a deixa-lo atraente de novo.

A narrativa é bastante descritiva, mas não ao ponto de assustar ou cansar, na verdade, é justificada pela necessidade de criar os cenários desse universo e todo o clima que acompanha a jornada de Lia. Os personagens são interessantes e cativantes: Lia é uma personagem forte, fugindo totalmente ao estereótipo de princesa que não consegue se virar sozinha.  Entre as personagens femininas rola uma cumplicidade e um cuidado, quase uma irmandade, que fazem com que a força da mulher esteja sempre em evidencia neste livro: elas não são o plano de fundo, na verdade são as verdadeiras protagonistas. Os homens são bem construídos em suas personalidades, têm pontos parecidos, mas também características totalmente pessoais e dúvidas existenciais diferentes.

As relações no livro são o que o fazem interessante. Apesar de existir o romance, não é o foco principal da história, mas sim a relação de Lia consigo mesma e dela com as pessoas a sua volta. A princesa aprende sobre o ser humano, até onde ele pode chegar por algo, a capacidade de amar e odiar a mesma pessoa. As situações que precisa vivenciar e as pessoas com quem vive constroem a jornada que a leva sempre de volta a quem ela é, e quais os limites do ser humano. Tudo isso com muita sutileza.

Os diálogos são bem escritos, envolventes e muitos trazem reflexões interessantes. O enredo também foi bem planejado: desde o jogo com o leitor até a história composta por detalhes, o que a torna rica. A guerra, as pessoas, o bem e o mal que existe em todos, tudo isso é explorado e a dicotomia entre o “amor e o ódio” é evidente, inclusive na personalidade de seus personagens.

Vale também uma nota sobre a edição do livro: está belíssima. A capa dura, as ilustrações ao longo da obra e a diagramação estão um primor. A fonte e o papel são perfeitos para a leitura em qualquer ambiente e os marcadores que acompanham, junto com o pôster, são mimos bem-vindos. A Darksidebooks está de parabéns.


Por não florear a maldade, por não florear a bondade, por não seguir padrões de “mocinhas que são indefesas” ou separar o “bom” dos “maus”, pois demonstra a relatividade dessas características, por ter um enredo envolvente e cativante, The Kiss of Deception é uma ótima pedida para viver uma aventura apaixonante.  Esperemos que a autora não se perca em sua continuação.  





quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Não querendo ser chata

Do google

Mas a vida de escritor iniciante é um tormento. Começa pelo fato de que não sabemos por onde começar. Claro que existe aquele sonho, aquelas palavras enraizadas em alguma parte do seu coração (sim, bem brega, mas é verdade), no entanto, convenhamos, trabalhar por instinto é uma droga!

Supondo que você passou da fase inicial e conseguiu escrever o seu livro: o que raios você faz agora?

O original claramente precisa de uma revisão, todos merecem segundas e terceiras olhadas. Se você for paciente vai tentando sozinho, se não, pede a ajuda de alguém. Mas quem? Em geral profissionais cobram e nem todos têm recursos. Trabalho voluntário também não ajuda: as pessoas têm seus próprios afazeres e, em algum momento, tendem a esquecer você e sua obra.

Resultado: ou se vira sozinho e tenta revisar por conta própria ( um processo complicadíssimo para alguns autores, devido a intimidade com o texto) ou engaveta tudo. Na minha opinião ninguém deveria revisar sozinho seu próprio livro. 

Ah, e é muito fácil engavetar.

 A vida exige que você se mexa, que arrume um emprego que dê dinheiro, que faça algo para conseguir se sustentar. É extremamente fácil esquecer seus sonhos em meio à correria, e não apenas os da escrita: qualquer sonho.

Depois vem o cansaço. Se você não tem condições de se dedicar somente aquilo que realmente quer, você vai sendo desgastado dia-após-dia por tudo que não quer fazer, mas que precisa, pois do contrário como poderia sobreviver? Faculdade, trabalho e projetos.

"E por que você não fez algo relacionado ao seu sonho?"

Ora, porque meu sonho não me garante dinheiro. Desde do momento em que se decide ser escritor você provavelmente vai escutar algo como: faça um curso que tenha alguma coisa de escrita, mas que lhe confira um diploma, porque, afinal, não existe garantias de que você ganhará dinheiro com livros.

E mesmo que você tenha visto um curso de graduação a respeito da escrita criativa é necessário muita coragem para seguir o que quer de verdade, afinal, você precisa comer. E ai, se faltou a coragem ou o dinheiro para ir atrás das pouquíssimas cursos universitários sobre escrita, você faz letras, jornalismo ou qualquer coisa que lhe deixe minimamente próxima do mundo que você, na verdade, gostaria de estar (isso se é que você está cursando uma universidade e não fazendo qualquer outro trabalho que também tomará seu tempo quase integralmente).

Mas, na real, você está muito longe desse mundo. 

Depois de alguns anos você começa a se dar conta de que, de fato, deixou quase tudo para trás e sua função agora é sobreviver. Você já quase não lembra do prazer de escrever o que quer de verdade. Você escreve uma vez ou outra quando o desgaste e o cansaço não enferrujam sua determinação, já tão acabada.

Às vezes, você pode escutar autores e professores dizendo que, para se escrever, é necessária dedicação, dando total preferência a esse ofício: escrever todos os dias, aprender sobre o mercado e como se inserir nele, procurar caminhos, procurar melhorar sempre...

O pior é que eles estão certos. O pior é que, para largar tudo e escrever, é preciso coragem para assumir que terá um início (se não a vida) de incertezas. Porque, queridos, publicar não é sinônimo de vender nem de permanecer no mercado. Na verdade, agora o autor não precisa apenas escrever bem: tem de ser sua própria marca. As pessoas querem gostar de você e não apenas do seu trabalho. E se você não é muito bom em tirar fotos, twittar frases engraçadas e interessantes, ou fazer textão no facebook, já sabe: boa sorte tentando fazer seu próprio marketing. Têm aqueles que conseguem, claro que tem, não é uma obrigação ser sociável é apenas uma recomendação, principalmente se seu publico é jovem.

Se, e somente se, você conseguiu quebrar metade das barreiras que apresentei, você tem uma chance de chegar ao seu objetivo. Você escreve, você luta para ter alguém que te ajude com a revisão, você pode até fazer um dos milhares de cursos de escrita criativa, oficinas, que tem por aí ( e fazer a seleção de quais são boas de verdade, e não dinheiro jogado fora, é mais uma dor de cabeça), você batalha para ser aceito em uma editora ou se auto publicar e, o segundo maior de todos os desafios (pois escrever algo bom, já é um baita desafio): vender.  Alguns conseguem, outros, como em qualquer profissão, estão perdidos no meio do caminho por diversas razões (provavelmente as que citei aqui).

Ser escritor não é um hobby, ser escritor não pode ser um ofício para depois da aula e ser escritor não precisa ser um sonho: pode ser uma meta. Desde que você tenha coragem de realmente lutar pelo que deseja e assumir que escrever é um trabalho sim e exige a mesma demanda de tempo que qualquer outro.

Mas, convenhamos, haja coragem... talvez, ser escritor, seja uma das profissões mais ousadas do mundo: você tem de vencer o mundo para ter condições de criar seus próprios universos.