sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Bibliotecas/quadro/ palavras




Sabe aqueles dias em que não há absolutamente nada para se dizer? É como se as palavras tivessem lhe abandonado...  Tento trazê-las de volta. Mas elas não querem... Ou só estão rindo da minha cara.

Estou sentada em uma biblioteca -sem livros- universitária onde todos os livros só são encontrados por funcionários. Os alunos requisitam esses livros e os computadores os acham. Um tédio. Sempre gostei de procurar os livros, de olhar os títulos. Certas bibliotecas são modernas demais para mim...

Nessa biblioteca todos estão em silêncio- o que é bom- alguns fazem trabalho em dupla. Outros estão em mesas individuais lendo ou estudando. A maioria com livros fechados e computadores abertos. Incluindo eu que estou escrevendo.

Tem alguns anúncios, do tipo "não entre com comida" ou "celulares desligados". Acho que essa é a minha deixa para esconder o guaraná...

Algumas pessoas saíram da biblioteca. Um casal está fechando a bolsa. As luzes aqui são perfeitas para leitura, contudo o aposento não passa a sensação de aconchego que uma biblioteca ideal deveria passar. É tão impessoal... Como se não fosse... Sei lá. O lugar não está vivo. Tem pessoas. Mas mesmo com essas pessoas não há vida. O quadro tem mais vida que o aposento inteiro. Acho... É, foi por isso que  o amei tanto. O quadro, quero dizer. Ele, com toda a sua sobriedade, é mais vivo do que a biblioteca inteira!

Quase vazio. O aposento está quase vazio. Acho que ainda vou passar duas horas nessa realidade. As músicas nos fones de ouvido não estão ajudando a melhorar meu humor. Queria saber o que a mulher do lado está lendo. Impossível ver daqui. Bom, vou dormir. Talvez assim o tempo passe.

Desculpe se meu texto não tem nenhum grande significado. Ou tomou o seu tempo . Desculpe se o gastei. E obrigada por ouvir esses pensamentos sem grande importância. Mesmo sem palavras interessantes as que eu tenho eu lhe ofereci com a melhor das intenções- ou sem grandes intenções, apenas um egoísmo vaidoso- nesse monólogo sem significado para terceiros. Obrigada. Boa noite. 
Que a biblioteca universitária feche as portas!! Adeus.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Despercebido






Uma menina na rua tentava insistentemente pentear o cabelo do irmão. Ela ria. Ele corria. Agora analise o seguinte: enquanto ela ria e ele corria, alguém se perdia, alguém tinha dúvidas, alguém sonhava, alguém bebia, alguém cantava, alguém caminhava, alguém sorria, alguém chorava, alguém pedia, alguém dava, alguém morria, alguém nascia, alguém lanchava, alguém andava de carro e via a menina pentear o cabelo do irmão e pensava " é eu já fiz isso com meu irmão também". Esse alguém sorriu e passou. A menina e o garoto jamais saberão que alguém pensou neles, e neles enxergou o passado de si mesmo.

 O fato é: você nunca vai saber. Só vai ter o retrato vago do que aconteceu no mundo quando resolver ler, assistir a um jornal ou ter acesso a qualquer outro meio de comunicação. E mesmo assim você não saberá um terço. O mundo gira, milhares de pessoas andam, milhares de pessoas nascem e morrem. E enquanto degusta seu jantar, alguém pode estar pensando em você. Alguém pode ter lhe visto na rua. Alguém pode até sonhar com você sem sequer saber quem você é. Apenas lhe viu durante um belo dia em qualquer lugar e por alguma razão o cérebro guardou o seu rosto e resolveu reproduzi-lo em sonhos.

São tantas pessoas, tantos mundos diferentes, tantos pensamentos e sentimentos... se soubéssemos tudo que já pensaram sobre nós ou tudo que já pensaram sobre todos, provavelmente enlouqueceríamos, seria muita informação para processarmos. Sem falar na invasão da privacidade. Não sei sobre os outros, mas para mim, ter a certeza de que as pessoas não são capazes de conhecerem o que se passa em meu intimo é um alento. Como se esse mundo privado e escondido dentro de minha cabeça fosse meu luxo pessoal. Aqui eu posso pensar sem incomodar a ninguém, aqui eu sou eu, sem as máscaras que vestimos no dia-a-dia, aqui guardam-se os segredos e os caprichos pessoais que a humanidade não tem o direito de conhecer, pois não interessa a mais ninguém que não a mim. Assim como os seus sonhos também nunca devem ser ditos a menos que seja de seu desejo.

Seus pensamentos, seu conhecimento, suas maluquices, seus devaneios, tudo isso pertence a você. Talvez sejam as únicas coisas que são somente suas. Mesmo assim, não saber é curioso, não acha?

 Talvez você passe pelo mundo. Talvez o mundo passe por você. Mas nenhum dos dois pede licença, ou se preocupa em se apresentar. Talvez um dos mistérios mais interessantes do universo seja o porteiro de um prédio vizinho por onde você anda na calçada da frente todos os dias a caminho do trabalho, mas não sabe o nome dele. Ou quem sabe seja a menina com o pente tentando colocar o irmão sentado para arrumar os cabelos do garoto, enquanto uma pessoa qualquer passa pelo lugar e se identifica com a cena.

Mas passa. Não fica. O pensamento precioso se perde no tempo.

 A menina não sabe, o menino ignora, e a pessoa que passou, apenas passou. Pode ser que o indivíduo cuja lembrança aflorou guarde a memória para sempre. Pode ser que os netos desse indivíduo descubram a história um dia. Porém, a menina e o garoto dificilmente saberão da existência da lembrança e sequer terão consciência sobre um dia terem lembrado a alguém uma infância guardada no tempo. E talvez esse seja o maior mistério. Quantos gestos seus já lembraram a alguém aleatório alguma coisa? E quantas coisas acontecem no mundo enquanto você dorme?

Perguntas não respondidas. Melhor, deve ser, ir dormir sem pensar demais. Ás vezes é muito mais agradável imaginar.